Quem passa por uma cirurgia plástica costuma ouvir que vai precisar usar uma cinta compressiva depois. A pergunta que quase ninguém responde com dados é: o que os estudos científicos realmente encontraram quando testaram isso? Reunimos aqui os ensaios clínicos publicados nos últimos anos, incluindo três conduzidos pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e resumimos os resultados como eles são — inclusive quando contrariam o senso comum.
O que uma revisão de estudos mostrou
Em 2024, uma revisão sistemática publicada na JPRAS Open reuniu os cinco ensaios clínicos randomizados disponíveis até então sobre cinta compressiva após abdominoplastia, somando 130 pacientes no total (Arkoubi, 2024). A conclusão foi cautelosa: o uso da cinta mostrou apenas uma tendência NÃO significativa de reduzir seroma (acúmulo de líquido sob a pele), melhorar a função respiratória e diminuir o edema (inchaço) subcutâneo. A mesma revisão apontou que a evidência disponível sugere que a cinta aumenta a pressão intra-abdominal. Os autores classificam a qualidade da evidência como baixa, dado o número pequeno de pacientes estudados, e pedem ensaios maiores e mais rigorosos.
Uma segunda revisão, publicada na Plastic and Reconstructive Surgery Global Open, olhou para o uso de compressão em vários tipos de cirurgia plástica — rinoplastia, lifting facial, mamoplastia, abdominoplastia e contorno corporal (Ormseth et al., 2023). Segundo os autores, as indicações com melhor respaldo científico são reduzir edema e equimose (roxo) depois de rinoplastia, e reduzir dor depois de cirurgias de mama e abdominais. Mas em nenhum procedimento a compressão demonstrou efeito sobre a taxa de seroma. A revisão também lista riscos possíveis do uso da compressão: desconforto do paciente, aumento da estase venosa (o sangue circula com mais dificuldade nas veias) e lesões de pele. Os próprios autores recomendam que os cirurgiões “reavaliem criticamente” o uso rotineiro da cinta.
Três ensaios brasileiros, resultado por resultado
O grupo de pesquisa da UNIFESP conduziu uma sequência de ensaios clínicos randomizados especificamente sobre cinta pós-abdominoplastia, e os resultados são os dados mais diretos que temos sobre o tema em pacientes brasileiras.
Em um deles, 32 mulheres foram divididas entre usar a cinta ou não usar, e todas receberam dez sessões de drenagem linfática manual como parte do protocolo (Fontes de Moraes et al., 2023). Resultado: o grupo que NÃO usou cinta apresentou menos edema subcutâneo a partir do 24o dia de pós-operatório, e uma circunferência de cintura significativamente menor a partir do 35o dia (p<0,001). Ou seja, nesse ensaio, usar a cinta esteve associado a mais inchaço residual, não a menos.
Em outro ensaio, com 34 mulheres (16 usando cinta, 18 sem cinta), todas operadas com pontos de sutura em leque (quilting) para reduzir o espaço morto — técnica que já é conhecida por diminuir seroma por conta própria (Martins et al., 2022). O resultado: não houve diferença significativa no volume de seroma nos dias 7 e 14, nem na taxa de diástase recorrente aos seis meses, entre quem usou e quem não usou a cinta. Quando a sutura de quilting já é usada, a cinta não acrescentou benefício mensurável nesses dois desfechos.
Um terceiro ensaio, com 34 mulheres, avaliou especificamente a função respiratória (Kosloski et al., 2024). O grupo que usou a cinta apresentou maior restrição na capacidade vital forçada e na capacidade inspiratória do que o grupo sem cinta — ou seja, a cinta prejudicou a respiração nos primeiros dias. Os próprios autores explicam, na introdução do artigo, por que isso preocupa: o aumento da pressão intra-abdominal e a redução do fluxo venoso na veia femoral causados pela compressão podem, em teoria, favorecer eventos tromboembólicos — e por isso a função respiratória é um desfecho de segurança relevante, não só de conforto.
Quando a compressão parece ajudar mais
Nem todos os achados vão na mesma direção. Uma revisão com meta-análise sobre cirurgias abdominais gerais — não estéticas, como laparotomias — encontrou que a faixa abdominal elástica reduziu a dor no primeiro e no terceiro dia de pós-operatório, melhorou a atividade física no terceiro dia, e não prejudicou a função pulmonar (Ossola et al., 2021). É um resultado positivo real, mas vem de uma população diferente (pacientes de cirurgia geral, muitas vezes mais velhos, operados por outros motivos), o que reforça por que não dá para simplesmente estender esse achado para o pós-operatório de cirurgia plástica.
O que as sociedades médicas recomendam
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica orienta, em seu material para pacientes, que “a utilização correta de cintas, sutiãs cirúrgicos ou faixas é recomendada para dar suporte à área operada, reduzir inchaços e minimizar quadros como a formação de seromas” (SBCP, 2025). Vale registrar essa posição porque ela mostra que a recomendação clínica de uso, hoje, se apoia mais na experiência acumulada da prática cirúrgica do que nos resultados específicos dos ensaios randomizados citados acima — que, como vimos, são mistos e por vezes contrariam essa expectativa.
O que fica claro, e o que ainda está em aberto
A leitura conjunta desses estudos mostra uma ciência ainda incompleta: não há, até hoje, ensaio randomizado que comprove que a cinta reduz seroma após abdominoplastia; há pelo menos um ensaio em que o grupo sem cinta teve menos inchaço; e há evidência de que a compressão pode restringir a respiração nos primeiros dias. Ao mesmo tempo, há relatos consistentes de alívio da dor e melhora da mobilidade em outros contextos cirúrgicos. Cada corpo, cada técnica cirúrgica e cada protocolo pós-operatório são diferentes — por isso a decisão sobre usar, por quanto tempo e com que intensidade cabe sempre ao seu cirurgião, que conhece a sua cirurgia específica.
Fontes
- Arkoubi AY. Effect of Compression Garments on Post-Abdominoplasty Outcomes: A Systematic Review of the Current Evidence. JPRAS Open, 2024. doi.org · CC BY-NC-ND 4.0 (resumido).
- Ormseth BH, Livermore NR, Schoenbrunner AR, Janis JE. The Use of Postoperative Compression Garments in Plastic Surgery — Necessary or Not? A Practical Review. Plastic and Reconstructive Surgery Global Open, 2023. doi.org · CC BY-NC-ND 4.0 (resumido).
- Fontes de Moraes BZ, Ferreira LM, Martins MRC, Rostom L, Castro HAS, Nahas FX. Do Compression Garments Prevent Subcutaneous Edema After Abdominoplasty?. Aesthetic Surgery Journal, 2023. doi.org · sem licença aberta declarada (citado).
- Martins MRC, Moraes BZF, Fabri DC, Castro HAS, Rostom L, Ferreira LM, Nahas FX. Do Abdominal Binders Prevent Seroma Formation and Recurrent Diastasis Following Abdominoplasty?. Aesthetic Surgery Journal, 2022. doi.org · sem licença aberta declarada (citado).
- Kosloski FR, Barbosa MVJ, Rodrigues MA, Martins MRC, Ferreira LM, Nahas FX. Effect of Compression Garments on the Ventilatory Function After Abdominoplasty. Aesthetic Surgery Journal, 2024. doi.org · sem licença aberta declarada (citado).
- Ossola P, Mascioli F, Coletta D, Pizzato M, Bononi M. Evidence on Postoperative Abdominal Binding: A Systematic Review with Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. The Surgeon, 2021. doi.org · sem licença aberta declarada (citado).
- Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Pós-Operatório em Cirurgia Plástica. cirurgiaplastica.org.br, 2025. cirurgiaplastica.org.br · sem licença aberta declarada (citado).
