Nenhuma peça compressiva é feita de um único fio. O que você sente ao vestir uma cinta ou um modelador é o resultado de uma combinação de fibras, cada uma cumprindo uma função diferente na malha. Entender essa combinação ajuda a entender também por que o cuidado com essas peças é diferente do cuidado com uma roupa comum.
O fio que estica: elastano
O elastano — também chamado de spandex, nome mais comum nos Estados Unidos — foi inventado em 1958 por Joseph Shivers, na empresa química DuPont, de acordo com a Wikipedia (conteúdo licenciado sob CC BY-SA, adaptado aqui). A característica que o tornou indispensável para a indústria de vestuário é simples de descrever: o fio consegue esticar até cinco vezes o seu comprimento original e retornar ao formato inicial depois. Nenhuma fibra natural, como o algodão, tem esse comportamento. A adoção do elastano foi tão ampla que, segundo a mesma fonte, estimava-se que 80% das roupas vendidas nos Estados Unidos em 2010 continham algum percentual de elastano — da calça jeans à roupa íntima.
Mas o elastano raramente aparece sozinho num tecido. Ele é fino, caro e, isolado, não tem estrutura suficiente para formar uma malha resistente. Por isso, toda peça compressiva combina o elastano com outra fibra que dá corpo ao tecido.
O parceiro do elastano: poliamida
Uma revisão científica publicada na revista Polymers, sobre o design de peças de compressão em geral, descreve como fibras elastoméricas — entre elas o elastano — são combinadas com fios de poliamida (também chamada de nylon) na construção da malha. A poliamida contribui com resistência mecânica, toque mais firme e durabilidade, enquanto o elastano contribui com a capacidade de esticar e voltar ao formato. É essa combinação, e não um único fio, que determina a pressão final exercida pelo tecido sobre o corpo.
Um estudo mais recente, também publicado na Polymers, mediu esse efeito com números específicos comparando diferentes composições de fio numa família de malhas de compressão: a adição de mais um fio contendo poliuretano (o componente elástico) aumentou a pressão medida em cerca de 2,03 mmHg, mais do que a poliamida sozinha conseguia proporcionar. Ao mesmo tempo, o mesmo estudo mediu um efeito colateral: quanto mais fio elástico na malha, menor a permeabilidade ao ar do tecido — ou seja, existe uma troca medida entre pressão mais alta e conforto térmico, e nenhuma malha consegue maximizar as duas coisas ao mesmo tempo.
O tipo de fio pesa mais do que a quantidade de fio
O mesmo estudo de 2025 comparou tecidos com diferentes combinações de fio — alguns com mais fio de poliuretano, outros com mais fio de poliamida — e mediu a pressão exercida por cada combinação na altura do tornozelo, já que os tecidos testados eram voltados para meias de compressão. O resultado mais alto medido foi 19,83 mmHg, na malha com mais fio de poliuretano; o mais baixo foi 16,67 mmHg, numa malha tricotada só com poliamida. Comparando duas malhas com o mesmo número total de fios, mas com materiais diferentes, a diferença de pressão chegou a 18% — o que levou os próprios pesquisadores a concluir que o tipo de material do fio pesa mais na pressão final do tecido do que a quantidade de fios usados. Ou seja, duas peças com “a mesma quantidade” de fio elástico podem se comportar de forma bem diferente, dependendo de qual fio foi usado.
A mesma pesquisa também confirma algo relevante para quem escolhe uma peça pensando em conforto: a malha que teve a maior pressão medida foi também a que teve a pior permeabilidade ao ar entre as testadas, enquanto a malha só com poliamida teve boa respirabilidade e a menor pressão. Os próprios autores descrevem esse equilíbrio entre pressão e conforto térmico como um desafio ainda em aberto no desenvolvimento de tecidos de compressão.
O que é a malha powernet
O termo “powernet” é usado na indústria de moda íntima e modeladores para descrever um tipo de malha construída em formato de rede ou grade, geralmente combinando elastano com poliamida numa estrutura mais aberta e resistente do que uma malha lisa comum. É essa estrutura em rede — e não um fio específico — que dá o nome ao tecido. A função da powernet costuma ser oferecer sustentação em áreas mais amplas da peça, com uma elasticidade diferente da malha lisa usada em outras partes. Essa é uma descrição de como o tecido é construído, um ponto de nomenclatura da indústria têxtil, e não um resultado medido em nenhum dos estudos consultados para este artigo — por isso não há um número de pressão ou percentual associado a ela aqui.
Por que a composição muda o jeito de cuidar da peça
Como cada peça combina fibras em proporções diferentes, o cuidado ideal também muda de peça para peça — e é por isso que a etiqueta de cada produto, e não uma regra genérica sobre “elastano”, deveria guiar a lavagem. Tratamos esse ponto com mais detalhe no artigo sobre como lavar a cinta modeladora, e sobre o que o calor e o cloro fazem com o elastano.
Para ver como essas composições aparecem nos modelos disponíveis, visite a categoria de modeladores ou o catálogo completo.
Fontes
- Wikipedia (Wikimedia Foundation). Spandex. Wikipedia, 2026. en.wikipedia.org · CC BY-SA 4.0 (trecho traduzido e adaptado).
- Xiong Y, Tao X. Compression Garments for Medical Therapy and Sports. Polymers (MDPI), 2018. mdpi.com · CC BY 4.0 (resumido).
- Li NW, Kwan MY, Yick KL. Pressure and Thermal Behavior of Elastic Polyurethane and Polyamide Knitted Fabrics for Compression Textiles. Polymers (MDPI), 2025. mdpi.com · CC BY 4.0 (resumido).
