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Manga de compressão e linfedema após cirurgia de mama: o que os estudos mostram

Dois ensaios clínicos testaram se a manga de compressão previne o linfedema após a retirada de linfonodos — e chegaram a resultados diferentes.

Laço rosa ao lado de um estetoscópio
Ilustração gerada por IA

O que é o linfedema depois da cirurgia de mama

Linfedema é o acúmulo de linfa no braço, que causa inchaço persistente, quando a remoção ou irradiação dos linfonodos da axila interrompe parte da drenagem natural desse líquido. É uma complicação possível depois da retirada de linfonodos axilares no tratamento do câncer de mama, e pode aparecer meses ou anos depois da cirurgia. Um ensaio clínico que estudou o tema em mulheres com aumento subclínico de volume no braço observa que cerca de 25% das pacientes submetidas ao esvaziamento axilar desenvolvem linfedema (Bundred et al., 2023).

A manga usada de forma preventiva evita o linfedema? o estudo PLACE

O ensaio PLACE randomizou 143 mulheres com câncer de mama linfonodo-positivo, que já mostravam um aumento subclínico de volume no braço após o esvaziamento axilar, para usar ou não uma manga de compressão de 20 a 24 mmHg. Aos 24 meses, a taxa de linfedema foi de 41% no grupo sem manga contra 30% no grupo com manga — uma diferença que os autores classificam como NÃO estatisticamente significativa (p=0,32). Entre as pacientes com índice de massa corporal acima de 30, a taxa foi idêntica nos dois grupos, 46%, sugerindo que o excesso de peso pode anular qualquer benefício observado da manga (Bundred et al., 2023).

Um resultado diferente: o estudo de Paramanandam

Outro ensaio clínico randomizado, com 307 mulheres após esvaziamento axilar, testou o uso profilático da manga de compressão por três meses após o tratamento. Nesse estudo, o grupo que usou a manga teve risco significativamente menor de desenvolver inchaço no braço no primeiro ano (razão de risco 0,61; p=0,004) — um resultado positivo, e o oposto do que o PLACE encontrou (Paramanandam et al., 2022).

Colocados lado a lado, os dois ensaios mostram uma evidência mista sobre o uso preventivo da manga: nem toda pesquisa de boa qualidade chega a conclusão igual, e isso, mais do que uma falha, é o retrato honesto de uma área ainda em estudo. As diferenças de desenho ajudam a entender por quê: o PLACE recrutou mulheres que já tinham um aumento subclínico de volume no braço antes de randomizá-las, enquanto o estudo de Paramanandam começou a compressão logo após a cirurgia, num grupo de risco mais amplo. São janelas de tempo e populações diferentes dentro do mesmo tema — prevenção do linfedema — e essa diferença de desenho pode explicar parte do resultado divergente.

Quando o linfedema já está instalado, o tratamento é outro

Os estudos citados acima avaliam prevenção — usar a manga antes do inchaço aparecer. Quando o linfedema já está instalado, a fisioterapia brasileira estuda protocolos diferentes, que combinam várias técnicas ao mesmo tempo. Uma revisão de literatura de uma universidade pública do Piauí, que analisou setenta e um artigos sobre o tema, descreve que a chamada terapia complexa descongestiva — que combina a manga de compressão, drenagem linfática manual, enfaixamento e exercícios — produziu, nos estudos revisados, uma redução média de 47,42% no inchaço e de 388,67 mL no volume do braço (Luz & Lima, 2011). É importante notar que esse resultado é de um protocolo com várias técnicas combinadas, não do uso isolado da manga.

O linfedema também é estudado fora da manga sozinha

Outros grupos brasileiros de fisioterapia estudam o linfedema pós-mastectomia associando a manga à estimulação elétrica e a exercícios específicos. Um protocolo testado pela Universidade de São Paulo, em pacientes já com linfedema instalado, combinou estimulação elétrica de alta voltagem, exercício e orientações de autocuidado, e obteve uma redução de 14,13% no percentual de aumento de volume do braço (p=0,0067) e de 13,8% na diferença de volume entre os dois braços (p=0,0089) (Barros et al., 2013). De novo, o resultado é de um protocolo com várias frentes de tratamento trabalhando junto, não de uma peça de compressão isolada.

O que dizem as sociedades internacionais

O Documento de Consenso de 2023 da International Society of Lymphology, atualizado por especialistas de vários países, descreve que há dados de múltiplos ensaios clínicos sustentando o uso da manga de compressão tanto no tratamento do linfedema relacionado ao câncer de mama quanto na prevenção em estágio inicial — mas o mesmo documento reconhece que manter o uso contínuo da manga a longo prazo é difícil para muitas pacientes, sobretudo em climas quentes (International Society of Lymphology, 2023). Isso confirma o que os ensaios individuais já sugeriam: a manga tem um papel dentro do cuidado, mas nenhum estudo aqui descrito a apresenta como garantia contra o linfedema.

Fale com sua equipe de saúde

Se você fez ou vai fazer uma cirurgia com esvaziamento axilar, a decisão sobre usar ou não uma manga de compressão, por quanto tempo e com qual pressão, deve ser tomada com seu cirurgião, oncologista ou fisioterapeuta — são eles que conhecem o seu caso e podem acompanhar sua evolução.

Fontes

  • Bundred NJ, et al.. Prevention of lymphoedema after axillary clearance by external compression sleeves: PLACE randomised trial results. Effects of high BMI. Cancer Medicine, 2023. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · CC BY 4.0 (resumido).
  • Paramanandam VS, et al.. Prophylactic Use of Compression Sleeves Reduces the Incidence of Arm Swelling in Women at High Risk of Breast Cancer-Related Lymphedema: A Randomized Controlled Trial. Journal of Clinical Oncology, 2022. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · sem licença aberta declarada (citado).
  • Luz ND, Lima ACG. Recursos fisioterapêuticos em linfedema pós-mastectomia: uma revisão de literatura. Fisioterapia em Movimento, 2011. scielo.br · CC BY-NC 4.0 (resumido).
  • Barros VM, Panobianco MS, Almeida AM, Guirro ECO. Linfedema pós-mastectomia: um protocolo de tratamento. Fisioterapia e Pesquisa, 2013. scielo.br · CC BY 4.0 (resumido).
  • International Society of Lymphology, Executive Committee. The Diagnosis and Treatment of Peripheral Lymphedema: 2023 Consensus Document. Lymphology, 2023. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · direitos reservados, leitura livre (citado).

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