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Malha compressiva após queimadura: o que a Cochrane mostra, e por que a adesão é o maior desafio

Uma revisão Cochrane de 2024 avaliou a malha compressiva para cicatriz de queimadura, e a adesão ao uso contínuo segue sendo o desafio central.

Caderno de checklist com marcações em branco e um relógio
Ilustração gerada por IA

O que são as cicatrizes que a malha acompanha

Depois de uma queimadura profunda, a pele pode cicatrizar formando uma cicatriz hipertrófica: uma área elevada, espessada e às vezes avermelhada, que fica dentro dos limites da ferida original (diferente do queloide, que ultrapassa esses limites). Uma revisão de um centro de cirurgia plástica brasileiro descreve que a cicatriz hipertrófica surge de tensão aumentada na pele, reepitelização demorada e/ou infecção da ferida, com depósito excessivo de colágeno numa fase de maturação prolongada — e que, ao contrário do queloide, ela tende a regredir com o tempo (Isaac et al., 2011).

A malha de compressão feita sob medida é, há décadas, o cuidado padrão oferecido a pacientes queimados em centros de tratamento no mundo todo, para acompanhar essa cicatriz durante a fase de maturação. A proposta, historicamente, é que a pressão contínua sobre a área cicatrizada ajude a modular a produção de colágeno durante essa fase — mas, como a próxima seção mostra, provar isso com ensaios clínicos robustos tem se mostrado difícil.

O que a revisão Cochrane de 2024 encontrou

A revisão Cochrane mais recente sobre o tema reuniu 15 ensaios clínicos randomizados, com 1.179 participantes, comparando o uso da malha de compressão — sozinha ou combinada com outros tratamentos — contra nenhum tratamento, lanolina ou silicone (Harris et al., 2024).

O resultado é uma lição de honestidade científica: a certeza da evidência foi classificada como MUITO BAIXA em todos os desfechos avaliados — gravidade da cicatriz pelas escalas validadas (Vancouver Scar Scale e POSAS), dor, coceira, eventos adversos, qualidade de vida e adesão ao tratamento. A conclusão dos próprios autores é que há “evidência insuficiente para recomendar o uso da terapia com malha de compressão ou de uma alternativa para prevenir cicatriz hipertrófica após queimadura”, e que, enquanto essa evidência não melhora, faz sentido deixar a preferência do paciente guiar o tratamento.

Isso significa que a malha não serve para nada?

Não é essa a leitura correta, e a própria revisão evita essa conclusão. “Evidência insuficiente” não é o mesmo que “evidência de que não funciona”: significa que os 15 ensaios disponíveis são pequenos, heterogêneos — usam malhas, protocolos e tempos de acompanhamento diferentes — e não permitem uma resposta estatisticamente sólida em nenhuma direção.

É por isso que a malha compressiva continua sendo prescrita como padrão de cuidado em centros de queimados: a prática clínica se apoia em décadas de observação e no consenso entre especialistas, não ainda em ensaios robustos o suficiente para uma recomendação formal baseada em evidência forte.

O maior desafio não é o tecido — é o uso contínuo

Um artigo de um centro de tratamento de queimados da Universidade Estadual de Londrina, que descreve a produção de um vídeo educativo sobre o uso da malha, cita que a adesão ao tratamento com malha compressiva na população adulta é de apenas cerca de 41% (Itakussu et al., 2014). Os autores explicam que pacientes costumam abandonar o uso “devido ao incômodo, à vergonha e ao desconhecimento” sobre a importância da constância.

Um estudo qualitativo mais antigo, com pacientes queimados e terapeutas ocupacionais, chegou a uma conclusão parecida: boa parte do que os profissionais chamam de “falta de adesão do paciente” é, na prática, uma escolha racional diante de dificuldades reais — desconforto, calor, limitação de atividades e falta de clareza nas instruções recebidas. Os autores observaram que a adesão melhorava quando havia mais alinhamento entre o que o paciente sentia sobre a própria pele e o que a equipe clínica percebia, e quando a confecção da malha era ajustada às queixas relatadas — um lembrete de que a adesão não é apenas disciplina do paciente, e também depende do ajuste contínuo entre paciente e equipe.

Por que a constância parece importar

Um estudo em modelo animal — porcos, cuja pele é usada como referência próxima à humana em pesquisa de queimados — ajuda a entender por que a interrupção precoce preocupa os especialistas. Quando a pressão foi retirada após 17 semanas de tratamento contínuo, a cicatriz voltou a se retrair rapidamente nas semanas seguintes, ficando mais contraída, mais espessa e menos flexível do que a do grupo que manteve a pressão contínua — e as fibras de colágeno voltaram a um padrão parecido com o do grupo que nunca recebeu tratamento (DeBruler et al., 2018). É um estudo em animais, então não prova o que acontece em humanos, mas ajuda a explicar por que a equipe multidisciplinar insiste tanto na regularidade do uso.

Converse com sua equipe de cuidado

A ciência sobre a malha compressiva para queimaduras ainda está incompleta, e é importante que você saiba disso — mas a decisão sobre quando, como e por quanto tempo usar a sua é sempre individual. Converse com seu médico ou fisioterapeuta sobre as dúvidas e as dificuldades que você sentir durante o tratamento; são eles que podem ajustar o cuidado ao seu caso.

Fontes

  • Harris IM, Lee KC, Deeks JJ, Moore DJ, Moiemen NS, Dretzke J. Pressure-garment therapy for preventing hypertrophic scarring after burn injury. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2024. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · direitos reservados Cochrane/Wiley, leitura livre (resumido).
  • DeBruler DM, et al.. Early cessation of pressure garment therapy results in scar contraction and thickening. PLoS ONE, 2018. pmc.ncbi.nlm.nih.gov · CC0 (domínio público) (resumido).
  • Itakussu EY, Fujisawa DS, Franco PPR, Schultz AR, Anami EHT, Kuwahara RM, Trelha CS. Elaboração de vídeo educativo sobre uso da malha compressiva após queimadura. Revista Brasileira de Queimaduras, 2014. rbqueimaduras.com.br · sem licença declarada (citado).
  • Isaac C, Ladeira PRS, Rego FMP, Aldunate JCB, Tutihashi RMC, Ferreira MC. Revisão sobre cicatrizes hipertróficas e queloides. Revista Brasileira de Queimaduras, 2011. rbqueimaduras.com.br · sem licença declarada (citado).

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