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Meias de compressão em viagens longas: o que a revisão sistemática mostra

Uma revisão brasileira reuniu oito estudos sobre meias de compressão em voos longos — veja o que a evidência diz sobre inchaço e trombose.

Vista de janelinha de avião com nuvens e um pequeno travesseiro de viagem
Ilustração gerada por IA

Por que as pernas incham em voos longos

Ficar sentado e imóvel por horas, como acontece num voo longo, dificulta o retorno do sangue das pernas para o coração. Some a isso a baixa umidade e a pressurização da cabine, e o resultado é o inchaço nos tornozelos que muita gente sente ao desembarcar. Em casos raros, a imobilidade prolongada também é um fator de risco conhecido para a trombose venosa profunda (TVP), a formação de um coágulo numa veia profunda da perna — e voos de longa duração estão entre as situações de imobilidade que a literatura vascular associa a esse risco, ao lado de cirurgias e internações prolongadas.

A meia de compressão graduada é um dos recursos mais estudados para tentar reduzir esses dois problemas — o inchaço, que é apenas desconfortável, e a TVP, que é rara mas grave — justamente porque ela não depende de o passageiro se levantar ou se movimentar durante o voo.

O que a revisão sistemática brasileira encontrou

Uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados, publicada no Jornal Vascular Brasileiro, avaliou oito estudos sobre o uso de meias de compressão em viagens aéreas — 2.022 passageiros para os desfechos de tromboembolismo venoso e 1.311 para os desfechos de inchaço (Silva et al., 2021). Os autores encontraram evidência de ALTA qualidade de que as meias de compressão reduzem o inchaço relacionado à viagem, com benefício mais evidente em voos de mais de sete horas, e evidência de qualidade MODERADA de redução do risco de tromboembolismo venoso entre os passageiros que usaram meia, em comparação aos que não usaram.

Como a compressão graduada funciona, fora do contexto de voo

O mecanismo por trás da meia de compressão graduada — mais apertada no tornozelo, afrouxando em direção ao joelho — vem principalmente de estudos com pacientes cirúrgicos hospitalizados, uma população diferente da de um passageiro saudável num voo. Uma revisão Cochrane que reuniu 20 ensaios clínicos e 1.681 pacientes cirúrgicos encontrou trombose venosa profunda em 9% dos pacientes que usaram meia de compressão graduada no hospital, contra 21% dos que não usaram (razão de chances 0,35) (Sachdeva et al., 2018). Os próprios autores dessa revisão apontam que faltam dados para avaliar a eficácia da meia em pacientes que não estão internados ou em cirurgia — ou seja, a força dessa evidência específica não pode ser transferida automaticamente para o contexto de viagem.

É um contexto diferente do de uma viagem aérea — cirurgia e internação envolvem imobilidade e risco de coágulo por razões próprias, muitas vezes somadas a outros fatores clínicos do paciente — mas o estudo hospitalar ajuda a entender por que a compressão graduada é estudada como forma de favorecer o retorno venoso das pernas durante longos períodos parado, seja numa cama de hospital, seja numa poltrona de avião. A própria revisão brasileira sobre viagens aéreas (Silva et al., 2021) é o estudo que efetivamente mediu esse efeito no cenário que interessa a quem vai viajar.

Quem deve conversar com o médico antes de voar

A meia de compressão é um produto de venda livre, mas isso não significa que ela sirva do mesmo jeito para todo mundo. Os oito estudos reunidos pela revisão brasileira acompanharam, em geral, passageiros sem uma condição de saúde prévia que aumentasse o risco de trombose — então os resultados descrevem o que acontece numa população relativamente saudável, não necessariamente o que aconteceria com alguém que já tem um fator de risco adicional.

Pessoas com histórico de trombose ou embolia, cirurgia recente, tratamento oncológico ativo, gravidez, obesidade, uso de medicamentos hormonais ou histórico familiar de doenças de coagulação têm um perfil de risco diferente do estudado nos ensaios gerais de viagem, e podem precisar de orientação específica sobre o tamanho, a pressão (em mmHg) e até a real necessidade de compressão no seu caso. Uma meia mal ajustada ou apertada demais também pode causar desconforto ou marcas na pele sem trazer o benefício esperado.

O que a revisão não respondeu

A própria revisão brasileira reconhece limites do que os oito estudos incluídos permitem concluir. Os desfechos de inchaço e de tromboembolismo vieram de grupos de estudo com tamanhos diferentes (2.022 passageiros para o desfecho de tromboembolismo e apenas 1.311 para o de inchaço), o que mostra que a evidência sobre cada desfecho tem uma base própria, não uma única população estudada duas vezes. Isso reforça que uma revisão sistemática soma estudos com desenhos variados — destinos, durações de voo e definições de “inchaço” ou “trombose” um pouco diferentes entre si — e por isso a leitura mais honesta é “a evidência aponta nessa direção”, não “está provado para o seu voo específico”.

Antes de embarcar numa viagem longa

Se você tem algum dos fatores de risco acima, ou dúvidas sobre o seu caso específico, converse com seu médico antes de uma viagem longa — ele é quem pode avaliar se a meia de compressão faz sentido para você, e com qual especificação.

Fontes

  • Silva LF, Porto MSR, Sousa AB, Avena KM. Meias de compressão em viagens aéreas: revisão sistemática. Jornal Vascular Brasileiro, 2021. scielo.br · CC BY 4.0 (resumido).
  • Sachdeva A, Dalton M, Lees T. Graduated compression stockings for prevention of deep vein thrombosis. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2018. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · direitos reservados Cochrane/Wiley (citado).

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