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Seroma, edema e fibrose: o que são e o que a cirurgia estuda sobre eles

Entenda essas três reações comuns no pós-operatório e como estudos cirúrgicos brasileiros investigam sua prevenção.

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Ilustração gerada por IA

O que é seroma

Seroma é o nome dado ao acúmulo de líquido — uma mistura de plasma e linfa — num espaço que se forma sob a pele quando o tecido é descolado do músculo durante a cirurgia. É uma das complicações mais comuns depois de uma abdominoplastia ou lipoabdominoplastia, e costuma aparecer nas primeiras semanas de pós-operatório.

Um estudo comparativo com 41 pacientes da Universidade Federal de São Paulo acompanhou por ultrassom os dois tipos de cirurgia. Encontrou seroma em 38,1% das pacientes de abdominoplastia convencional entre os dias 11 e 14 do pós-operatório, contra 10% no grupo de lipoabdominoplastia; entre os dias 18 e 21, a diferença foi de 33,3% contra 0% (Di Martino et al., 2010). O estudo atribui a diferença à técnica cirúrgica — o plano de descolamento é menor na lipoabdominoplastia — e não ao uso de qualquer peça de compressão.

O que é edema

Edema é o inchaço causado pelo acúmulo de líquido nos tecidos, uma resposta natural do corpo a qualquer trauma cirúrgico. Costuma ser mais visível nos primeiros dias e diminui ao longo de semanas, e sua evolução é um dos sinais que a equipe médica acompanha na consulta de retorno.

Um ensaio clínico randomizado da mesma universidade, com 32 mulheres após abdominoplastia, comparou o uso ou não da malha compressiva — todas as participantes também receberam dez sessões de drenagem linfática manual. O resultado foi contraintuitivo: o grupo que NÃO usou a malha apresentou menos edema subcutâneo a partir do 24o dia, e uma circunferência de cintura significativamente menor a partir do 35o dia (p<0,001) (Fontes de Moraes et al., 2023). Os próprios autores não apontam uma explicação definitiva, e o achado segue sendo discutido entre especialistas.

O que é fibrose

Fibrose é o espessamento do tecido cicatricial, formado pelo depósito de colágeno durante a cicatrização. Pode ser sentida como um endurecimento ou um nódulo sob a pele, semanas depois da cirurgia, e em geral se resolve com o tempo — por isso é comum a equipe de fisioterapia acompanhar sua evolução.

Um estudo controlado com 20 pacientes testou um protocolo específico de manejo pré, trans e pós-operatório, combinando taping linfático, drenagem linfática manual, microcorrente e luz LED. No grupo que recebeu o protocolo completo, o tempo médio de resolução da fibrose caiu de 48,6 para 11,7 dias (p=0,0058), e o da equimose (o roxo da pele), de 17,6 para 7,8 dias (p=0,0002) (Chi et al., 2018). São resultados de um protocolo terapêutico com vários componentes, não do uso isolado de uma peça de roupa.

Estudos brasileiros investigam a técnica cirúrgica, não a peça de roupa

Boa parte da pesquisa brasileira sobre essas três reações não estuda a cinta ou a malha: estuda o que o cirurgião faz durante a operação. Uma revisão sistemática com metanálise de cinco estudos encontrou que o uso de pontos de adesão (as chamadas “quilting sutures”, que fecham o espaço morto durante a própria cirurgia) reduziu o risco de seroma em comparação com o uso isolado de drenos, com risco relativo de 0,13 (IC95% 0,02-0,66) (Martinelli et al., 2019).

Em outro estudo, com pacientes que já usavam pontos de adesão, o uso adicional de uma cinta abdominal não mostrou diferença no volume de seroma medido por ultrassom nos dias 7 e 14 (p=0,830 e p=0,882), nem na recorrência de diástase aos 6 meses (Martins et al., 2022). Em outras palavras: quando a técnica cirúrgica já fecha bem o espaço morto, a cinta usada por cima não mudou o resultado medido nesse ensaio.

Um segundo estudo, com o mesmo grupo de pacientes com taping intraoperatório, mediu também a dor relatada: o grupo que recebeu taping durante a cirurgia relatou dor zero no pós-operatório, contra uma média de até 5,50 (numa escala de 0 a 10) no grupo controle (Chi et al., 2021). É mais um exemplo de um desfecho ligado a uma técnica aplicada durante a cirurgia, não a uma peça vestida depois dela.

Por que isso importa para quem está se recuperando

Nenhum desses estudos testa uma peça de compressão como tratamento isolado de seroma, edema ou fibrose — eles avaliam protocolos cirúrgicos e fisioterapêuticos completos, com amostras pequenas (entre 20 e 41 pacientes) que pedem cautela antes de generalizar. O que fica claro na literatura é que essas três reações são esperadas, têm causas bem descritas e são acompanhadas pela própria equipe cirúrgica — a decisão sobre drenos, pontos, taping ou fisioterapia é clínica, tomada caso a caso.

Vale notar, também, que quase todos esses ensaios são de um mesmo grupo de pesquisa brasileiro, com números de pacientes pequenos — o que os torna uma base de evidência genuinamente nacional, mas ainda insuficiente para conclusões definitivas em qualquer direção. É por isso que a leitura honesta desses achados não é “a cinta não serve” nem “a cinta é essencial”, mas sim que a prevenção de seroma, edema e fibrose depende, segundo os próprios estudos, muito mais da técnica cirúrgica e do acompanhamento fisioterapêutico do que da peça de roupa usada por cima.

Se você notou inchaço, endurecimento ou acúmulo de líquido no seu pós-operatório, converse com seu cirurgião ou fisioterapeuta: são eles que avaliam se o que você está sentindo é esperado ou precisa de atenção.

Fontes

  • Di Martino M, Nahas FX, Novo NF, Kimura AK, Ferreira LM. Seroma em lipoabdominoplastia e abdominoplastia: estudo ultrassonográfico comparativo. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 2010. scielo.br · CC BY-NC 4.0 (resumido).
  • Chi A, et al.. Prevenção e tratamento de equimose, edema e fibrose no pré, trans e pós-operatório de cirurgias plásticas. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 2018. scielo.br · CC BY 4.0 (resumido).
  • Martinelli KG, Rezende CF, Colombo FG, Martinelli KG. Incidência de seroma em abdominoplastia com e sem uso de drenos e pontos de adesão: revisão sistemática e metanálise. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 2019. scielo.br · CC BY 4.0 (resumido).
  • Martins MRC, Moraes BZF, Fabri DC, Castro HAS, Rostom L, Ferreira LM, Nahas FX. Do Abdominal Binders Prevent Seroma Formation and Recurrent Diastasis Following Abdominoplasty?. Aesthetic Surgery Journal, 2022. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · sem licença aberta declarada (citado).
  • Fontes de Moraes BZ, Ferreira LM, Martins MRC, Rostom L, Castro HAS, Nahas FX. Do Compression Garments Prevent Subcutaneous Edema After Abdominoplasty?. Aesthetic Surgery Journal, 2023. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · sem licença aberta declarada (citado).

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